38 Solstícios de Inverno já cá cantam

Solstício de Inverno em Stonehenge
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Este ano o Solstício de Inverno aconteceu hoje às 7 horas e 8 minutos em Portugal, tendo coincidindo com o meu aniversário. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte.

Joy Division - She's Lost Control


... na ressaca do Control de Anton Corbijn. Um momento tão especial aguardado há várias semanas, concretizou-se ontem, finalmente, no cinema King. Quis o destino que o prestigiado fotógrafo que acompanhou o desenvolvimento dos Joy Division tivesse a brilhante ideia de realizar este biopic, que saiu quase perfeito: tem ritmo, uma belíssima fotografia, (da banda sonora não vale a pena falar...), e conta a estória (não sei se com h ou não... isso só Ian sabe, ou soube) da forma mais sóbria que se podia contar. Joy Division, a minha banda de culto, teve a homenagem cinematográfica merecida, apesar de não aprofundar muito bem os sentimentos de Curtis. Bem hajam, Anton e Sam Riley.

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25 de Dezembro
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.::. Pop dell'Arte .::.
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-> cabaret maxime <-
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A minha selecção 2007


Dos álbuns editados em 2007, os mais amados e mais ouvidos, foram 11: Nove internacionais e dois nacionais... o critério é simples -- o equilíbrio da primeira à última faixa. Aqui fica a táctica em modo 4-4-2 (muito obrigada, Joaquim, pelos termos técnicos):


Ponta de lança -> Black Strobe (Fr) - Burn your own church
Avançado de apoio -> U-Clic (Pt) - Console pupils
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Médio esquerdo -> Interpol (NY) - Our love to admire
Médio direito -> Arcade Fire (Ca) - Neon Bible
Médio ofensivo -> Einstürzende Neubauten (De) - Alles wieder offen
Trinco -> Radiohead (UK) - In rainbows
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Defesa direito -> The Partisan Seed (Pt)- Vision of solitary branches
Defesa esquerdo -> Beirut (NM) - The flying club cup
Central de marcação -> The Devastations (Aus) - Yes U
Líbero -> Chloé (Fr) - The waiting room
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Guarda Redes -> Prinzhorn Dance School (UK) - Prinzhorn dance school

Fernanda Botelho


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Hoje, vá-se lá saber porquê, liguei a televisão. Depois de rever um episódio da série Friends, assisti na dois a um excelente documentário dedicado a Fernanda Botelho. Fascinada com a senhora (que por coincidência nasceu no mesmo ano que a minha mãe – 1926), fui fazer uma pesquisa google e descobri que a escritora faleceu ontem, com 81 anos. Não sabia da existência de Fernanda Botelho. Por acaso notei que o canto superior direito do ecrã estava limpo (não tinha os 888 das reposições). Será possível que estivessem à espera da sua morte para passarem o documentário? … muito mórbido e perverso, na minha opinião. Porque é que este país continua com a teima de não valorizar e divulgar as pessoas com qualidade artístistica enquanto vivas? Vou começar a lê-la pelo fim: Gritos da minha dança (2003), uma selecção de textos inéditos.


The Devastations



Oh me, oh my


Rosa

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Devo dizer que estou viciada em The Devastations. Por um lado, assossio-os a um mix de Tindersticks com Nick Cave, mas não é aí que reside o que é para mim o mistério desta sedução. O mistério está na discrição. Ouve-se sem se dar conta e sabe bem. É soft e sensual, e ao mesmo tempo silêncio. Sinto-me desconcertada, pois não sou muito dada a música soft… e no entanto esta foge à regra. Descobri-os por acaso no mês passado e em pesquisas várias fui dar ao blog Limites do Silêncio e fiz um amigo.
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Vamos a eles: o baixista e vocalista Conrad Standish, o guitarrista e vocalista Tom Carlyon e o baterista Hugo Cran, australianos, juntaram as pautas em 2002 lá na ilha, mas há vários anos que tinham saído do país, optando por cidades como Berlim, Londres e pelo meio, vários percursos europeus. Gravaram o primeiro álbum em 2003 – The Devastations - e em 2005 o Coal (na minha opinião, o menos bom). Este ano lançaram o Yes, U – (… pleased to meet you). Ao que sei, já fizeram as aberturas de concertos dos Einstürzende Neubauten, Tindersticks e Nine Inch Nails.
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Já tocaram em Portugal duas vezes (Galeria Zé dos Bois e Santiago Alquimista), mas por agora não consta nenhum concerto para a promoção do último álbum em terras lusas; esperemos pela agenda de 2008.

La Linea interpreta Mozart

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E já agora, fica aqui uma sugestão a quem tem tendências depressivas: qualquer obra do W. A. Mozart (à excepção do Requien) é um excelente anti-depressivo. Está na hora: esta luz desde ontem que me está a afectar negativamente...

Arriba! Avanti Pop dell’Arte

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Sonhos Pop
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Avanti Marinaio
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Poppa Mundi
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Uma noite no RRV, princípios de Junho de 1988, os Pop dell’Arte, marcaram a diferença. Fiquei sempre com a imagem de João Peste, muito singelo, a atirar malmequeres (que pareciam não acabar) para o público.
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Ainda me lembro de mim, no mesmo ano, sentada no chão do meu quarto a ouvir o Free Pop, a ler a informação inclusa do LP e a sorrir deliciada enquanto lia por baixo da letra de algumas músicas: “João Peste – corneta de plástico…”… e assim continuaram: a recorrer aos mais variados efeitos sonoros na composição de cada música, sem nunca se repetirem, sem nunca se esgotarem, sem nunca nos cansarem. Só a título de exemplo, foi-me extremamente difícil seleccionar as músicas que acabo de colocar aqui à disposição de quem as quiser ouvir.
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Os Pop dell’Arte, continuam a ser a melhor banda de rock em Portugal, pela sua originalidade, coerência musical e criatividade. A lamentar as inúmeras interrupções e os parcos (mas excelentes) concertos. Não lamento o facto de não ser uma banda estável na sua formação, pois o produto final tem sido sempre cinco estrelas. Excelentes músicos.
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Para bem dos nossos pecados, voltaram a actuar. Aconteceu este mês no dia 16 em Barcelos e no dia 17 no Passos Manuel (Porto). Espero bem voltar a vê-los em palco, um pouco mais a sul. Já lá vão uns anos bem jeitosos desde a última vez que os ouVi – foi no Ritz Club em meados de 90.
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Eles vêm aí com um álbum de inéditos! Quando? Ninguém sabe … mas estou com uma fezada que vai ser para breve… muito, muito em breve.
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Querelle

Silence is not sexy at all...

Einstürzende Neubauten - Silence is Sexy

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Pablo Casals fotografado por Yousuf Karsh


J. S. Bach - Suite para Violoncelo (Prélude - Moderato) por Pablo Casals


Control

Ian Curtis (1956-1980)


Control estreou hoje em Lisboa e no Porto (lá terei eu de esperar mais um bocadinho para o ver…), apesar da ante-estreia ter tido lugar sábado passado no European Film Festival, a decorrer no Estoril, e com a presença muito especial de Anton Corbijn, amigo e fotógrafo pessoal de Ian Curtis , que com este filme, realiza a sua primeira longa-metragem.

Control abriu a Quinzena dos Realizadores em Cannes 2007, tendo sido triplamente premiado com o galardão de melhor filme europeu, melhor filme CICAE Art & Essai e com «Regards Jeunes» (prémio dedicado ao primeiro e segundo filmes de um autor). O filme é baseado no livro Touching From A Distance, biografia de Ian Curtis escrito por Deborah Curtis (a viúva de um mito). Mais um estreante é Sam-Riley, que segundo dizem, está muito bem no papel de Curtis.
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And now, just look at the trailer:

Einstüerzende Neubauten - Nagorny Karabach - 2007
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Einstüerzende Neubauten - Die Wellen - 2007




Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna . Einstürzende Neubauten . 4 de Maio . Aula Magna ....................................Lisboa

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Armenia - 1983

Honda

A publicidade é uma das formas mais criativas de comunicação da nossa actualidade. Neste vídeo publicitário a um automóvel, a mensagem subjacente de tudo ser calculado ao milímetro é uma constante... e funciona!

Ilusões de óptica

Uma experiênca que vale a pena o minuto e meio de sacrifício a olhar bem de perto para o que mais parece uma sessão de hipnose. No fim recebemos uma ordem para olharmos à nossa volta, e... simplesmente alucinante!

Cesário Verde biografado

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(1855-1886)


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

Primeiros versos de O Sentimento de um Ocidental

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Maria Filomena Mónica acaba de publicar a biografia de Cesário Verde - Muito obrigada, Senhora Professora. Este grandioso poeta da nossa língua, que teve a infelicidade de morrer aos 31 anos devido a uma estúpida de uma tuberculose, deixou-nos um livro de poesia, O Livro de Cesário Verde, editado no ano seguinte à sua morte pelo seu amigo Silva Pinto. Para mim, só Cesário e Pessoa sabem exprimir tão bem a alma de Lisboa.

A 19 de Julho, Jorge, o último dos irmãos, pergunta a Cesário:
- Queres alguma coisa?
- Não quero nada. Deixa-me dormir.
São estas as últimas palavras do poeta.

Primeiro Lume de Outono

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Domenico Scarlatti - Sonata para Cravo em Si bemol maior L50

Faz hoje 322 anos que nasceu em Nápoles o meu bem amado Domenico Scarlatti, compositor do período Barroco. Viveu em Portugal, tendo sido compositor real na corte do megalómano D. João V e mestre dos seus adorados filhos. Depois acompanhou a princesinha Maria Bárbara de Bragança para Madrid, que se foi casar com o melómano do príncipe herdeiro de Espanha, D. Fernando VI. Ali foi pai de cinco filhos. Durante os 25 anos que permaneceu em Espanha, Scarlatti compôs mais de quinhentas sonatas para instrumentos de teclas, dedicando-se sobretudo ao cravo. Morreu em Madrid a 23 de Julho de 1757 aos 71 anos.


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Não resisti a postar aqui uma fotografia do meu primeiro lume deste Outono, feito mesmo há pouco. Este ano arrefeceu mais tarde, já estava com saudades... Agora, vou contemplá-lo como eu gosto. O fogo é belo e puxa o olhar.

qUanTo MaiS cOnhEço aS pEsSoas, mAis GosTo dos
aNiMaiS
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God Is An Astronaut - Fragile

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Prinzhorn Dance School



You Are The Space Invader


Worker


No Books


Conhecem-se em Brighton, Inglaterra. Ela e Ele. O nome Prinzhorn é também a sua inspiração, pois, foram-no sacar ao Dr. Hans Prinzhorn, psiquiatra e historiador de arte, que se tornou célebre com o livro Expressões da Loucura, publicado em 1922, onde o autor apresenta as suas teorias sobre a psicologia da expressão, e valoriza a produção artística dos seus doentes demonstrando que a necessidade criadora está para além da desintegração da personalidade. Ele chama-se Tobin Prinz, e ela Suzi Horn. Ela toca baixo e bateria. Ele toca bateria e guitarra. Ambos cantam. Com a bênção de James Murphy (LCD Soundsystem), gravam pela DFA Records o seu primeiro single de 7’’ em Novembro de 2006. No início deste ano lançam mãos, voz e alma ao que virá a ser o seu primeiro álbum que recebe o mesmo nome da banda - Prinzhorn Dance School, e para isso refugiam-se numa casa sem telefone e sem computador.
A originalidade destes dois músicos reside no som cru e seco, simples e minimal, absolutamente essencial na forma dispensando qualquer adorno. O ambiente é forte, conciso e paranóico, marcado pela percussão e pelo baixo. A parte vocal é imperativa, muito sintética e very british, yes indeed!


Prinzhorn Dance School - Crackerjack Docker


A Inquisição dos mesquinhos


G. F. Haendel - Sarabande da Suite nº 11

O guarda que me autuou foi muito maldoso e manhoso (como se diz aqui - "macaco"), e passo a descrever o que se passou na manhã do dia 21 de Setembro:
Perto das 8 horas, saí de casa, fui beber o café para depois seguir para o meu local de trabalho. Entrei no carro, rodei a chave da ignição, liguei as luzes de presença (dado o céu estar nublado, a visibilidade era reduzida), coloquei o cinto de segurança e finalmente arranquei para uma viagem de 16 Km. Cerca de 25 metros à frente, um agente da Guarda Nacional Republicana, que é meu vizinho, e que por acaso até mora na casa que ele refere relativa ao local da dita contra-ordenação, avança pela estrada, na minha direcção, para me dar uma palavrinha. Eu paro o carro sem fazer ideia do que se passava – até pensei que fosse algum assunto de vizinhança, dado que moro muito perto. O guarda muito lentamente começa com uma conversa estranha (e eu cheia de pressa e meio atarantada como é normal quando acabamos de acordar, e também nervosa por estar perante uma autoridade, ainda para mais sendo ele a pessoa que é), dizendo que me tinha chamado. Digo estranha, pois àquela hora havia tal silêncio que eu não ouvi ninguém chamar ninguém e portanto deduzi imediatamente que ele queria conversa e estava decidida a despachar-me o mais rapidamente possível. Lembro-me que no final ele me diz: “Para a próxima, estacione melhor o carro e ponha o cinto de segurança”. Eu disse-lhe que sim, sem prestar a devida atenção ao que tinha acabado de ouvir, tal era a tensão que sentia de ver o tempo a passar e um horário a cumprir. Esperei que ele concluísse com um “pode seguir”, dei-lhe os bons dias, e ala para Vila Nova. No caminho de viagem aquelas palavras continuaram a ecoar nos meus ouvidos, e só então lhes dei a devida atenção e arrependi-me de não ter argumentado com o facto de ter o cinto de segurança colocado, como ele bem podia ver, e que este é um acto mecânico que eu tenho sempre antes de me fazer à estrada. Uma semana volvida, recebo um auto de contra-ordenação, vulgo, multa. A minha revolta perante tamanha maldade do agente é de tal ordem que nem fui capaz de a reclamar imediatamente. Pergunto-me: porque é que ele não me disse na altura que eu estava multada? Porquê? Pois, porque não o podia fazer – iria contra a verdade, e eu na altura ter-me-ia defendido facilmente. Atenção, são 120€, 10% do meu ordenado que mal chega para um mês. O Guarda agiu de má fé. Isto é kafkiano: primeiro paga-se, depois reclama-se, e nem se sabe o que irá acontecer, quando vão encaminhar o processo, nada! Uma vergonha do quero, posso e mando. E o mais irónico é que o Guarda nem sequer sabe quem foi Franz Kafka, nem nunca leu o Processo nem o Castelo, mas teve maldade suficiente para saber aproveitar-se do sistema, e prejudicar-me, muito provavelmente por o meu cão ter feito uma vez chichi na esquina da loja (que está sempre encerrada) ao lado da casa dele, e ele ter ficado a falar sozinho, proferindo pragas aos cães e afins, que eu bem ouvi... e foi esta a sua vingança mesquinha. É assim que começam muitas guerras.





Venus In Furs

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Comes in bells, your servant, don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart

Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there

I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears

Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart

Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me

I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart


Venus In Furs - Velvet Underground, The & Nico, 1967


Porque sem música, este espaço não seria meu...

A Comadre Morte


Pieter Bruegel - Le Triomphe de la Mort - 1562
Museo del Prado - Madrid


Havia um homem que tinha tantos filhos, tantos que não havia ninguém na freguesia que não fosse compadre dele e vai a mulher teve mais um filho. Que havia do homem fazer? Foi por esses caminhos fora a ver se encontrava alguém que convidasse para compadre.
Encontrou um pobrezito e perguntou-lhe se queria ser compadre dele.
— Quero; mas tu sabes quem eu sou?
— Eu sei lá; o que eu quero é alguém para padrinho do meu filho.
— Pois, olha, eu cá sou Deus.
— Já me não serves; porque tu dás a riqueza a uns e a pobreza a outros.
Foi mais adiante; e encontrou uma pobre e perguntou-lhe se queria ser comadre dele.
— Quero; mas sabes tu quem eu sou?
— Não sei.
— Pois, olha, eu cá sou a Morte.
— És tu que me serves, porque tratas a todos por igual.
Fez-se o baptizado e depois disse a Morte ao homem:
— Já que tu me escolheste para comadre, quero-te fazer rico. Tu fazes de médico e vais por essas terras curar doentes; tu entras e se vires que eu estou à cabeceira é sinal que o doente não escapa e escusas de lhe dar remédio; mas se estiver aos pés é porque escapa; mas livra-te de querer curar aqueles a que eu estiver à cabeceira, porque te dou cabo da pele.
Assim foi. O homem ia às casas e se via a comadre à cabeceira dos doentes abanava as orelhas; mas se ela estava aos pés receitava o que lhe parecia. Vejam lá se ele não havia de ganhar fama e patacaria, que era uma coisa por maior! Mas vai uma vez foi a casa dum doente muito rico e a Morte estava à cabeceira; abanou as orelhas; disseram-lhe que lhe davam tantos contos de réis se o livrasse da Morte e ele disse:
— Deixa estar que eu te arranjo, e pega no doente e muda-o com a cabeça para onde estavam os pés e ele escapa.
Quando ia para casa sai-lhe a comadre ao caminho:
— Venho buscar-te por aquela traição que me fizeste.
— Pois, então, deixa-me rezar um padre-nosso antes de morrer.
— Pois reza.
Mas ele rezar; qual rezou! Não rezou nada e a Morte para não faltar à palavra foi-se sem ele.
Um dia o homem encontra a comadre que estava por morta num caminho; e ele lembrou-se do bem que ela lhe tinha feito e disse:
— Minha rica comadrinha, que estás aqui morta; deixa-me rezar-te um padre-nosso por tua alma.
Depois de acabar, a Morte levantou-se e disse:
— Pois já que rezaste o padre-nosso, vem comigo.
O homem era esperto; mas a Morte ainda era mais; pois não era?



A Comadre Morte por Adolfo Coelho (1847/1919) - Contos Populares Portugueses